{"id":51,"date":"2021-06-22T20:41:57","date_gmt":"2021-06-22T23:41:57","guid":{"rendered":"https:\/\/circuitobr116.com.br\/noticias\/?p=51"},"modified":"2021-07-07T22:31:53","modified_gmt":"2021-07-08T01:31:53","slug":"jorge_wilson-simeira-jacob","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/circuitobr116.com.br\/noticias\/2021\/06\/22\/jorge_wilson-simeira-jacob\/","title":{"rendered":"Jorge Wilson Simeira Jacob"},"content":{"rendered":"\n<p>MINHA HIST\u00d3RIA EMPRESARIAL<\/p>\n\n\n\n<p>A convite da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), com outros colegas, prestei um depoimento sobre minha vida de empres\u00e1rio, que consta da Colet\u00e2nea organizada por Cleber Aquino, publicada em 1986 pela Gazeta Mercantil, no volume I. Transcrevo aqui mais ou menos o que disse ent\u00e3o.<br>\u00c9 merecedora da minha melhor aprecia\u00e7\u00e3o esta iniciativa da USP, entre outras raz\u00f5es porque, nos primeiros anos de minha vida empresarial, tive a curiosidade de ouvir as experi\u00eancias de l\u00edderes do setor, pela necessidade de cotejar suas a\u00e7\u00f5es, iniciativas, decis\u00f5es e resultados, com o que eu vinha obtendo, um referencial que eu procurei e n\u00e3o tive. Importante b\u00fassola para os iniciantes e talvez at\u00e9 para algum velho marinheiro, para orient\u00e1-los no mar da vida empresarial. Esta s\u00e9rie de depoimentos deve demolir alguns tabus, como aquele segundo o qual o empres\u00e1rio nunca tem tempo, est\u00e1 sempre ocupado, sua vida \u00e9 muito dif\u00edcil. A verdade \u00e9 que nem sempre somos muito ocupados, nem nossa vida \u00e9 muito dif\u00edcil. Os envolvidos gostam que acreditem nesse mito, pois d\u00e1 um toque de hero\u00edsmo ao nosso trabalho.<br>Tenho certeza de que o contato com os empres\u00e1rios convidados para este programa tornar\u00e1 percept\u00edvel que resultados favor\u00e1veis s\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 acess\u00edveis, mas at\u00e9 certo ponto f\u00e1ceis.<br>A proximidade com os fatos abre horizontes. Vejo isso com clareza na minha casa. Tenho cinco filhos. Sem que eu fizesse nenhum esfor\u00e7o para motiv\u00e1-los pela administra\u00e7\u00e3o, todos desejam seguir essa carreira, coincid\u00eancia que torna dif\u00edcil acreditar em voca\u00e7\u00e3o natural. Para mim a explica\u00e7\u00e3o consiste no fato de que eles, como todos os jovens, s\u00e3o bons observadores e constataram que o pai n\u00e3o trabalha muito, n\u00e3o \u00e9 muito preparado, mas consegue bons resultados. Nada mais sensato, pois, do que copiar o modelo que deu certo.<br>O convite para falar sobre mim mesmo tem uma faceta constrangedora. Falar de si mesmo \u00e9 como ruminar, e geralmente aborrece o ouvinte. O desafio de prender o interesse de uma plateia \u00e9 uma arte que os meus antepassados, os \u00e1rabes, desenvolveram com habilidade tornando-a uma atividade comercializ\u00e1vel. Sentar em uma tenda de mercado e contar hist\u00f3ria que mere\u00e7a paga foi uma proeza que n\u00e3o imagino poder repetir. Talento que n\u00e3o herdei e eu agora me falta para tentar encantar este p\u00fablico, como faria um bom contador de hist\u00f3rias com a descri\u00e7\u00e3o de minha vida empresarial.<br>Certamente n\u00e3o deve passar desapercebido de qualquer um, que nada desagrada mais um audit\u00f3rio do que a cabotinagem, o autoelogio gratuito. Talvez ningu\u00e9m melhor do que Cam\u00f5es para parametrar nosso comportamento, quando ensinava em versos que: honras, antes merec\u00ea-las e n\u00e3o t\u00ea-las do que t\u00ea-las sem merec\u00ea-las.<br>Atrevo-me a assegurar que sempre tive presente essa li\u00e7\u00e3o \u2013 procurar n\u00e3o me deixar seduzir pela vaidade. Quando isto acontecia, meu ego sentia-se sufocado. S\u00f3 quem n\u00e3o amargou uma derrota, um fracasso \u2013 e n\u00e3o \u00e9 o meu caso \u2013 s\u00f3 este ignora o perigo que existe na presun\u00e7\u00e3o, e a tranquilidade da virtude embutida no cultivo da mod\u00e9stia. Will Durant, em sua Hist\u00f3ria da Filosofia, ensinava que a presun\u00e7\u00e3o \u00e9 a satisfa\u00e7\u00e3o que temos por coisas que ainda n\u00e3o fizemos e o orgulho \u00e9 a leg\u00edtima satisfa\u00e7\u00e3o que temos com aquilo que j\u00e1 fizemos. Falar sobre o futuro aumenta o risco da presun\u00e7\u00e3o. \u00c9 mais f\u00e1cil falar sobre o passado porque podemos, se m\u00e9rito houve, expor o orgulho por nossa obra. Tomo, portanto, o lema de vida dos versos de Cam\u00f5es e o filosofar do sentimento de Durant. Se me trair e deixar transparecer algum tra\u00e7o pretensioso, arrogante, aceitem como falha expositiva, nunca como soberba.<br>Minha exposi\u00e7\u00e3o, para fins did\u00e1ticos, ser\u00e1 iniciada com uma figura da literatura, escolhida por ser muito conhecida, que permite ilustrar com simplicidade, fazer um retrato da alma de todos n\u00f3s. Refiro-me ao livro Fern\u00e3o Capelo Gaivota, que conta a hist\u00f3ria de uma gaivota que, inconformada com suas limita\u00e7\u00f5es, aspira uma vida melhor. Por este ideal, sacrifica seu conforto e sua comodidade. Em busca do aperfei\u00e7oamento, esquece a alimenta\u00e7\u00e3o, a ponto de emagrecer. Fern\u00e3o vive as mesmas situa\u00e7\u00f5es que se apresentam quando tentamos desenvolver uma atividade: a satisfa\u00e7\u00e3o da conquista e a frustra\u00e7\u00e3o da derrota, da cr\u00edtica social, at\u00e9 familiar, como acontece nas comunidades med\u00edocres, tentando desestimular-nos. \u00c9 bobagem! Deixe disso! Cuide de sua comida!<br>Como simples gaivota, n\u00e3o deveria tentar desenvolver uma habilidade \u2013 a velocidade \u2013 para a qual n\u00e3o tinha nascido. Fern\u00e3o, ap\u00f3s um voo fracassado, espatifa-se na \u00e1gua. \u00c9 tomado pelo des\u00e2nimo e vai mergulhando no derrotismo, quando subitamente uma ideia nova centelha em sua cabe\u00e7a: a \u00e1guia voa r\u00e1pido porque tem asas curtas, portanto\u2026 E l\u00e1 est\u00e1 ele voando de asas encolhidas, no mimetismo que, segundo acredita, o levar\u00e1 \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o. Nada mais natural que ele n\u00e3o se entenda com os med\u00edocres, que n\u00e3o t\u00eam ideal. Para ele, a felicidade estava em aprimorar-se, para outros, as gaivotas, alimentar-se. No final da vida, j\u00e1 no c\u00e9u, tem a felicidade de exercer como adestrador o que deve ser a aspira\u00e7\u00e3o mais elevada do homem: ser \u00fatil, ajudar, ensinar aos iniciantes a t\u00e9cnica e a arte acumuladas em sua exist\u00eancia.<br>Nesta s\u00edntese est\u00e1 tamb\u00e9m o retrato do empres\u00e1rio que se apresenta aqui. Um pequeno Fern\u00e3o Capelo Gaivota com o mesmo idealismo, as mesmas emo\u00e7\u00f5es, o mesmo entusiasmo e, por que n\u00e3o, a mesma barreira social a ser superada: Deixe disso! A vida \u00e9 curta! Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 do ramo! Mas com a mesma satisfa\u00e7\u00e3o pessoal de ajudar outras gaivotas a voar mais r\u00e1pido, a serem melhores.<br>Vamos aos fatos.<br>Estamos em 1985. Fazendo uma avalia\u00e7\u00e3o em retrospectiva, olhando nossa trajet\u00f3ria iniciada em 1950, considero que nossa obra atendeu \u00e0s nossas expectativas, ainda que n\u00e3o nos faltem frustra\u00e7\u00f5es de desejos n\u00e3o realizados.<br>Por\u00e9m, a nossa satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se assenta no quantitativo, n\u00e3o medimos grandeza ou import\u00e2ncia, assenta no qualitativo: ter realizado algo que serve aos nossos objetivos pessoais sem brigar, em momento algum, com nossos valores \u00e9ticos. O como se obteve um resultado \u00e9 a ess\u00eancia de uma avalia\u00e7\u00e3o de desempenho em uma \u00e9tica empresarial na qual os fins n\u00e3o justificam os meios. Esta consci\u00eancia \u00e9tica do grupo \u00e9 que justifica a satisfa\u00e7\u00e3o e orgulho que temos por nossa realiza\u00e7\u00e3o. A empresa tem como objetivo o lucro que \u00e9 a medida do desempenho e a fonte de recursos para as necessidades de investimento e remunera\u00e7\u00e3o da sua equipe, mas sem colocar em risco a constru\u00e7\u00e3o de um conceito de seriedade, confiabilidade e compet\u00eancia profissional. Este \u00e9 o car\u00e1ter do grupo Fen\u00edcia, uma personalidade definida que nos faz distintos no mercado.<br>Nesta altura da minha exist\u00eancia, considero-me uma pessoa realizada, mas n\u00e3o acabada. Se isso pode ser chamado de felicidade, sou um homem feliz. Tive a sorte de colocar as ambi\u00e7\u00f5es ao alcance de minhas m\u00e3os. N\u00e3o segui a regra de Vicente de Carvalho, segundo a qual a felicidade est\u00e1 onde n\u00f3s a pomos e n\u00f3s a pomos sempre onde n\u00e3o estamos. Fui feliz justamente por colocar a felicidade onde sempre estive. Considero-me feliz porque, mesmo nos momentos cruciais da vida, nunca fui obrigado a perder a dignidade, o que seria uma viol\u00eancia insuport\u00e1vel para mim; e nunca precisei me afastar da paz de esp\u00edrito, que seria a dor irrepar\u00e1vel. Esses s\u00e3o os valores maiores de minha vida. Por t\u00ea-los, durmo bem, como tranquilo e, acima de tudo, sinto que consegui n\u00e3o ter sido dominado pelos valores materiais. Estes vem, v\u00e3o e n\u00e3o me emocionam. Como Fern\u00e3o Capelo Gaivota, meu entusiasmo est\u00e1 no aperfei\u00e7oar, no descobrir, no aprender e no ensinar. Tenho claramente separados os valores do esp\u00edrito e da mat\u00e9ria \u2013 sou um idealista.<br>Ap\u00f3s este strip-tease psicol\u00f3gico, dou um pulo muito atr\u00e1s, em um momento que influenciou e explica muitos dos meus atos: a vinda de meus av\u00f3s do L\u00edbano para o Brasil.<br>Estamos em 1895. O L\u00edbano \u00e9 parte do Imp\u00e9rio Turco. Meus av\u00f3s, que tinham uma situa\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel e pr\u00f3spera, sen\u00e3o rica, resolveram perder tudo e vir para o Brasil. Para eles, sob o dom\u00ednio otomano, n\u00e3o havia o que consideravam fundamental \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de seus valores: a liberdade. Preferiram, assim, trocar os valores materiais, o conforto da vida organizada de sua terra, pela liberdade em um pa\u00eds estranho, de l\u00edngua e costumes desconhecidos. Estou certo de que este amor \u00e0 liberdade permeou nossas gera\u00e7\u00f5es. Sempre me impressionou terem abandonado uma posi\u00e7\u00e3o estabelecida, ricos que eram nos padr\u00f5es de l\u00e1, para, com passaporte de turcos, ganharem o p\u00e3o mascateando. Viveram trinta ou quarenta anos em Minas Gerais, em uma vida praticamente de subsist\u00eancia. Foi a primeira li\u00e7\u00e3o que herdei: a liberdade n\u00e3o deve ser alienada. A segunda li\u00e7\u00e3o foi a valoriza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, do estudo. \u00c9 m\u00e1xima de fam\u00edlia que a \u00fanica heran\u00e7a que n\u00e3o se perde \u00e9 o que se sabe. Essa ningu\u00e9m toma. Perderam os bens materiais ao se mudarem, mas o que sabiam veio com eles. Esta convic\u00e7\u00e3o era t\u00e3o forte que economizavam em tudo, menos no estudo. Todos puderam estudar. Tenho tios com forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria em uma \u00e9poca em que quase n\u00e3o havia escolas \u2013 o come\u00e7o do s\u00e9culo.<br>Vamos dar agora um salto para 1927. A fam\u00edlia do lado materno detinha uma situa\u00e7\u00e3o muito favor\u00e1vel. Eram industriais, comerciantes e propriet\u00e1rios. A crise de 1929 transformou-os em falidos. Perderam tudo. Aqui vamos aprender outra li\u00e7\u00e3o: a fam\u00edlia fez fortuna no Brasil rapidamente e n\u00e3o preparou a sucess\u00e3o. Foram criados como filhos de ricos, despreparados para uma economia din\u00e2mica; n\u00e3o souberam adaptar-se aos novos tempos e, em poucos anos, foram reduzidos a mascates. O dinheiro \u00e9 um amante infiel: n\u00e3o resiste \u00e0 menor tenta\u00e7\u00e3o: muda de m\u00e3o.<br>Mudan\u00e7a para outra cena: 1950. Aqui come\u00e7a, na pr\u00e1tica, a minha vida. Eu n\u00e3o tinha m\u00e3e, que morrera h\u00e1 seis anos, quando eu tinha onze anos de idade. \u00c9ramos tr\u00eas irm\u00e3os, filhos de um pai bastante liberal. Fomos criados soltos, em clima de liberdade. \u00c9ramos garotos livres. Meu pai n\u00e3o exercia nenhum policiamento ostensivo. T\u00ednhamos que assumir nossas responsabilidades, nossos estudos, em um clima de relacionamento muito amoroso. Meu pai tentava, e o fazia muito bem, suprir a falta de nossa m\u00e3e. Sozinhos \u2013 pois ele viajava com certa frequ\u00eancia, n\u00f3s nos cuid\u00e1vamos. Um tra\u00e7o que nos marcou foi o amor dele pela leitura. Nossa casa foi sempre cheia de livros, que eram o assunto de nossas refei\u00e7\u00f5es. N\u00e3o sei se por t\u00e9cnica ou entusiasmo, sempre nos contava um trecho do livro que estava lendo. Assim agu\u00e7ava nossa curiosidade pelo enredo, despertando o entusiasmo pelos personagens e admira\u00e7\u00e3o pelos autores. Isso nos fez leitores ass\u00edduos. L\u00edamos tudo. Aos 16 anos, eu j\u00e1 tinha devorado as obras de Machado de Assis, o Tesouro da Juventude e tudo o que ca\u00eda \u00e0 minha frente. O neg\u00f3cio de meu pai, um pequeno patrim\u00f4nio, era constitu\u00eddo por alguns im\u00f3veis de renda e uma loja de tecidos, mas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca e \u00e0 cidade, est\u00e1vamos situados no topo da pir\u00e2mide. Em um dia 13 de outubro, em fulminante ataque card\u00edaco, ele faleceu. Foi a materializa\u00e7\u00e3o de um fantasma que sempre me assustava ao passar por minha cabe\u00e7a \u2013 a total depend\u00eancia dele. Naquela noite triste, ficamos praticamente desemparados, eu com 16 anos, meu irm\u00e3o com 14 e minha irm\u00e3 com idade que sou proibido de divulgar. Nossas rela\u00e7\u00f5es familiares limitavam-se \u00e0 nossa casa, nada al\u00e9m. Assim, a sensa\u00e7\u00e3o era de ver o ch\u00e3o fugindo dos p\u00e9s. Naquele abismo, naquela perplexidade, naquele medo, fui salvo do desespero pela m\u00e1xima que ele repetia constantemente: quem tem medo n\u00e3o vence na vida. Esta lembran\u00e7a valeu-me como uma ordem frente \u00e0quele epis\u00f3dio e tem-me valido em muitas outras ocasi\u00f5es. O exemplo de coragem legado nessa frase era a express\u00e3o verbal de sua conduta na vida.<br>Eu n\u00e3o sabia que a morte dele n\u00e3o seria a \u00fanica surpresa, mas s\u00f3 o desencadear de uma sucess\u00e3o de descobertas surpreendentes. Nos dias seguintes, passadas as cerim\u00f4nias formais, naquele mundo onde meu pai era t\u00e3o relacionado, onde muita gente lhe devia gentilezas, favores, aten\u00e7\u00f5es e at\u00e9 dinheiro, fugiram todos de n\u00f3s. Despencamos, de repente, de uma posi\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria de prest\u00edgio para o sentimento de indesejados, como se fossemos leprosos. \u00c9ramos tr\u00eas \u00f3rf\u00e3os e, ainda que n\u00e3o ped\u00edssemos nada a ningu\u00e9m, \u00e9ramos um problema s\u00e9rio. A exce\u00e7\u00e3o (al\u00e9m dos funcion\u00e1rios da loja, que foram muito solid\u00e1rios e foram meu suporte) foi um amigo de meu pai, que me disse: eu n\u00e3o entendo nada de neg\u00f3cios, n\u00e3o quero saber nada de neg\u00f3cios, mas entendo de amizade; seu pai foi meu amigo e agora eu sou amigo de voc\u00eas. Prometeu e cumpriu. Chego a acreditar que aquele casal nunca existiu. Parece um sonho a felicidade de encontrar tanta bondade, tanta generosidade em gente de carne e osso. Foram nosso esteio, a palavra de incentivo, a ajuda mais importante que recebemos.<br>Ficamos aguardando at\u00e9 o dia 1\u00ba de novembro uma ordem judicial para reabrir as portas de nossa loja de dez funcion\u00e1rios. A ideia era liquidar os neg\u00f3cios, o que n\u00e3o foi poss\u00edvel, pois a apura\u00e7\u00e3o das vendas n\u00e3o daria para cobrir as d\u00edvidas. A soma dos d\u00e9bitos com fornecedores, credores de propriedades compradas, mais o \u00f4nus do invent\u00e1rio (naquela \u00e9poca havia o Imposto Causa Mortis que gravava pesadamente a heran\u00e7a) suplantavam o valor do estoque. Nenhum credor podia ser pago antes de satisfazer o fisco; nenhum im\u00f3vel podia ser vendido, porque \u00e9ramos menores. E nosso pai acreditou que estava fazendo um patrim\u00f4nio de im\u00f3veis para nos garantir em sua aus\u00eancia\u2026 a verdade \u00e9 que, quando ele morreu, o que quase nos quebrou foi exatamente o imobilizado!<br>N\u00e3o havendo alternativa, a decis\u00e3o era ir em frente. Minha luz dizia que n\u00e3o tinha mais o que perder. Eu era menor, para a cadeia n\u00e3o poderia ir por d\u00edvida, portanto s\u00f3 restava arrega\u00e7ar as mangas e lutar. Jogado em alto mar, aprendi a nadar sem treino nem aviso pr\u00e9vio.<br>Foi assim meu come\u00e7o. N\u00e3o entendia nada de neg\u00f3cio, n\u00e3o tinha capital, n\u00e3o tinha cr\u00e9dito, n\u00e3o tinha idade legal para negociar e n\u00e3o tinha do que viver. N\u00e3o tinha conhecido o \u00eaxito e j\u00e1 experimentava a queda. Unido com funcion\u00e1rios antigos de casa e apegados a n\u00f3s viramos um grupo determinado a vencer. No in\u00edcio eu obedecia, depois, concord\u00e1vamos ou discord\u00e1vamos, sempre conscientes de que em nossa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia margem para o erro. O aspecto legal foi superado quando consegui que uma tia solteira, que n\u00e3o queria morar na cidade, fosse minha tutora. Estava certo de que ela n\u00e3o interferiria no meu trabalho, eu seria livre. Fui. Ela n\u00e3o assinava nada \u2013 tinha medo. Eu n\u00e3o pisquei: assinei o nome dela sempre que necess\u00e1rio. Assim, durante dois anos, minha assinatura foi um nome feminino.<br>Incomodava-me a separa\u00e7\u00e3o familiar, pois minha irm\u00e3 fora morar com uma tia e meu irm\u00e3o com outra. Fiquei sozinho tentando sobreviver. Durante quase dois anos, encerrava o dia pensando: hoje deu, mas ser\u00e1 que amanh\u00e3 vou ganhar para comer? Uma sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a muito grande. Hoje, quando olho para tr\u00e1s, tudo parece miragem, milagre. Se tivesse consci\u00eancia do que iria enfrentar, n\u00e3o sei se teria resistido. A ignor\u00e2ncia sobre o futuro faz com que, algumas vezes mais, outras menos, saibamos como assumir o presente.<br>A conjuntura ajudou um pouco. A tutora (na verdade, eu mesmo) prestava contas ao Curador de Menores, que tinha um interventor nos fiscalizando. Ele foi um manto protetor: enquanto n\u00e3o terminou o invent\u00e1rio (durante dezoito meses), o juiz segurava os pedidos de protestos e as tentativas de fal\u00eancia. Mas todo o dinheiro arrecadado era depositado em uma conta bloqueada no Banco do Brasil. O juiz liberava 10 ou 20% para as compras. Estava claro que a empresa ia acabar logo, ent\u00e3o resolvi \u00e0 minha maneira: comecei a comprar em meu nome, pois a falta de dinheiro e cr\u00e9dito estava me levando ao esgotamento.<br>Nessa situa\u00e7\u00e3o, visitando um fabricante, em S\u00e3o Paulo, o \u00fanico que n\u00e3o cortara meu cr\u00e9dito e continuava a me fornecer, perguntou-me como eu ia. Mal, muito mal, respondi. N\u00e3o tenho dinheiro para comprar \u00e0 vista e n\u00e3o tenho cr\u00e9dito. S\u00f3 posso ir mal. No mesmo momento, ele levou-me a um amigo e apresentou-me: M\u00e1rio, o pai desse menino foi muito nosso amigo. Ele est\u00e1 lutando sem dinheiro e sem cr\u00e9dito, por isso vai mal. Voc\u00ea vai vender para ele. Assim abriram-se as portas e eu n\u00e3o senti mais limita\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito. Essa abertura foi muito importante pois esses dois fornecedores, mais algumas compras \u00e0 vista, permitiram-me manter a loja com razo\u00e1vel variedade. Foram anos dif\u00edceis, de muito trabalho, de ins\u00f4nia, at\u00e9 que fizeram um pedido de fal\u00eancia. Meu advogado me disse: N\u00e3o d\u00e1 mais para segurar a situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei mais o que fazer. Fui para casa e passei a noite acordado, chorando desesperado, mas, como Fern\u00e3o Capelo Gaivota, tive um estalo: Est\u00e1 a\u00ed a sa\u00edda. N\u00e3o vou desistir agora. Quem veio at\u00e9 aqui vai mais em frente. Pela manh\u00e3 fui \u00e0 casa do juiz. Bati \u00e0 porta e fui recebido seca e friamente. Era um homem muito severo, fechado e de uma conduta moral do mais alto n\u00edvel. N\u00e3o quis me receber. Neg\u00f3cios da justi\u00e7a s\u00f3 atendo no f\u00f3rum. Insisti, mas ele foi inflex\u00edvel. Choroso, eu lhe disse: N\u00e3o posso ir ao f\u00f3rum. Ent\u00e3o ele me deixou entrar. Sentei-me e expus a situa\u00e7\u00e3o enquanto ele ouvia impass\u00edvel, parecendo nem respirar. Era de fazer medo. N\u00e3o vendo rea\u00e7\u00e3o, propus uma solu\u00e7\u00e3o: Temos dinheiro no Banco do Brasil que d\u00e1 para pagar 50% dos d\u00e9bitos com fornecedores e sobra o suficiente para satisfazer o credor preferencial, que \u00e9 o Estado, com seu fat\u00eddico Imposto Causa Mortis. Ele me perguntou: Isso resolve? Sim, respondi. Mande seu advogado entrar com o pedido logo na abertura do f\u00f3rum. \u00c0 tarde ele deferiu o pedido.<br>A libera\u00e7\u00e3o dos pagamentos abriu as portas de muitos fornecedores. Gradualmente eles vinham chegando e eu conquistando cr\u00e9dito, sem nunca ter ter pleiteado. Foi a\u00ed que aprendi a grande virtude da concorr\u00eancia: se algu\u00e9m faz, outro tenta fazer igual ou melhor. A cada fornecedor que eu conquistava vinha, em seguida, seu concorrente ou ele trazia um companheiro.<br>Foram dois anos de trabalho para mouro nenhum por defeito. Come\u00e7\u00e1vamos antes das 8 e \u00edamos at\u00e9 tarde da noite. N\u00e3o t\u00ednhamos domingo nem feriado. Um padre, vendo-me trabalhar no domingo, abordou-me: Voc\u00ea trabalha aos domingos? \u2013 Sim, se o senhor trabalha, por que eu n\u00e3o posso tamb\u00e9m? \u2013 Eu estou trabalhando para Deus, disse ele. \u2013 Eu tamb\u00e9m, respondi. Serve a Deus quem cumpre suas obriga\u00e7\u00f5es; eu estou trabalhando no domingo para n\u00e3o faltar com meus compromissos. Ele levou na esportiva e disse-me que fosse em frente.<br>Em 1952, com 18 anos de idade, fui emancipado. O invent\u00e1rio tinha terminado e os credores estavam pagos. Separei, ent\u00e3o, os im\u00f3veis sem d\u00edvidas para meus irm\u00e3os e fiquei com a loja. N\u00e3o queria v\u00ea-los em uma aventura. O que eu tinha na prateleira n\u00e3o estava pago, mas tinha cr\u00e9dito, o movimento tinha crescido e eu sentia o sabor da realiza\u00e7\u00e3o e da liberdade. Que emo\u00e7\u00e3o poder assinar o pr\u00f3prio nome, assumir formalmente a responsabilidade por meus atos. Agora eu podia voar e s\u00f3 prestaria contas a mim mesmo. Estava feliz. Tinha sobrevivido e tinha pela frente a vida que quisesse: poderia gozar vida (na express\u00e3o de todas as gaivotas que me cercavam) ou tentar empreender algo mais ambicioso. Filosofando com meus bot\u00f5es, conclu\u00ed: todos os momentos do que chamam gozar a vida n\u00e3o passam de lembran\u00e7as fluidas; o que realizei com meu trabalho \u00e9 real, concreto; \u00e9 seguran\u00e7a para a minha fam\u00edlia e \u00e9 uma forma de saber viver, aplicar-se com amor naquilo que se faz. \u00c9 uma escolha consciente. Vou em frente.<br>Fizemos uma s\u00e9rie de inova\u00e7\u00f5es: adotamos o pre\u00e7o fixo, que n\u00e3o era usual na \u00e9poca; preocupamo-nos em competir em pre\u00e7os, oferecer as \u00faltimas novidades, levantar o padr\u00e3o das mercadorias para atender ao n\u00edvel mais alto da clientela. Os resultados foram surgindo gradualmente e come\u00e7amos a pressionar a concorr\u00eancia.<br>Estava, pela idade, inscrito para o servi\u00e7o militar mas, apesar de arrimo de fam\u00edlia, apresentei-me no dia marcado e, para surpresa minha, n\u00e3o fui liberado e sim engajado, obra e arte da inveja de um concorrente, amigo de um oficial do ex\u00e9rcito. A coisa foi t\u00e3o deslavada que dispensaram um recruta para abrir minha vaga. Foram dez meses de caserna. Marcha de dia e loja de noite\u2026 nem em Esparta se exigiu tanto da vontade e autodisciplina de algu\u00e9m.<br>Em 1954, ap\u00f3s quatro anos de trabalho, passamos a ser a primeira loja da cidade. O povo fofocava: v\u00e3o quebrar, n\u00e3o s\u00e3o do ramo, t\u00eam sucesso porque o bispado banca\u2026 Esta \u00e9 a forma mais baixa e maldosa para tolher a liberdade de algu\u00e9m, por isso desprezo boateiros. Um dia, o Bispo da cidade, homem simples e extremamente t\u00edmido e introvertido, com quem eu nunca havia falado, saindo da r\u00e1dio local, minha vizinha, ap\u00f3s o programa da Ave Maria, parou sob a marquise de minha loja para proteger-se de forte chuva. Convidei-o a entrar e ele, constrangido, me disse: eu gostaria, mas n\u00e3o posso; j\u00e1 dizem que sou teu s\u00f3cio, teu agiota, sem te conhecer, se entrar v\u00e3o dizer que comprei a loja.<br>Eu j\u00e1 tinha descoberto que dinheiro n\u00e3o era obst\u00e1culo intranspon\u00edvel; serve apenas como boa desculpa quando n\u00e3o se quer ou n\u00e3o se tem compet\u00eancia empreendedora. Dinheiro est\u00e1 na cabe\u00e7a, n\u00e3o no bolso. Como a ordem era crescer, parti para construir uma loja nova, um sonho de meu pai. S\u00f3 que o dinheiro acabou antes do fim da obra. Com a imobiliza\u00e7\u00e3o, fiquei totalmente descapitalizado. Era come\u00e7ar tudo do zero outra vez.<br>Em 1957 inauguramos a nova loja, j\u00e1 com o nome de Arapu\u00e3. Como j\u00e1 lider\u00e1vamos o com\u00e9rcio local, come\u00e7amos a liderar o com\u00e9rcio de uma ampla regi\u00e3o, pois est\u00e1vamos no centro de uma \u00e1rea delimitada por quatro grandes cidades: Rio Preto, Bauru, Ara\u00e7atuba e Mar\u00edlia. Oferec\u00edamos uma sele\u00e7\u00e3o de artigos de tal ordem que toda a classe A da vizinhan\u00e7a vinha abastecer-se conosco. Nosso movimento era intenso at\u00e9 as 22:00 ou 23:00 horas. \u00c1vidos para inovar e aprender, lot\u00e1vamos um \u00f4nibus e traz\u00edamos clientes, cada dia da semana de uma cidade. Mesmo paulistanos em visita \u00e0 regi\u00e3o eram atra\u00eddos pelo nosso sortimento, que era melhor e mais completo do que o das lojas de S\u00e3o Paulo. \u00c9ramos favorecidos pela pol\u00edtica da ind\u00fastria de dar exclusividade para uma loja em cada bairro de S. Paulo. Como no interior \u00e9ramos os \u00fanicos, ficamos com a vantagem de ter a cole\u00e7\u00e3o completa. L\u00edamos o que existia sobre t\u00e9cnicas de varejo, neg\u00f3cios, economia e tent\u00e1vamos passar para a a\u00e7\u00e3o. Nas vindas mensais a S\u00e3o Paulo, observava as lojas e muitas vezes constatei que, sob muitos aspetos, est\u00e1vamos inovando. Aproveitei tamb\u00e9m o aprendizado com os melhores professores da Rua 25 de Mar\u00e7o, que j\u00e1 era uma escola de pr\u00e1tica de neg\u00f3cios muito importante. A escassez de capital apurou nossa sensibilidade para a administra\u00e7\u00e3o financeira. Ainda que continuasse acreditando que dinheiro n\u00e3o \u00e9 obst\u00e1culo \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 importante ao dar margem de manobra. Privilegiar a liquidez era fundamental n\u00e3o s\u00f3 por dar flexibilidade operacional, mas por n\u00e3o colocar limites ao crescimento. O capital pr\u00f3prio era entendido como reserva para falhas de uma opera\u00e7\u00e3o que deveria se autofinanciar. Capital pr\u00f3prio \u00e9 limitado, autofinanciamento, n\u00e3o. Da\u00ed tratarmos, at\u00e9 hoje, diferentemente, os recursos destinados \u00e0 opera\u00e7\u00e3o e \u00e0 imobiliza\u00e7\u00e3o. Nossos homens praticamente n\u00e3o t\u00eam limites decis\u00f3rios para o operacional, mas dependem da aprova\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria para a imobiliza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 avaliada criteriosamente: precisa ser estrat\u00e9gica e muito atraente. Ficamos tamb\u00e9m mais sens\u00edveis em rela\u00e7\u00e3o ao capital de giro e tomamos uma decis\u00e3o que consider\u00e1vamos muito importante: primeiro ganhar, para depois investir. Isso nos custou algum tempo sem expans\u00e3o, mas nosso crescimento se fez muito solidamente.<br>O passo seguinte foi abrir uma loja em Ara\u00e7atuba, onde t\u00ednhamos grande clientela que insistia na conveni\u00eancia de irmos para l\u00e1. J\u00e1 come\u00e7amos liderando o com\u00e9rcio local. O investimento estava pago em meses. Mas come\u00e7amos a perceber uma limita\u00e7\u00e3o em nosso neg\u00f3cio: a moda muda sem parar \u2013 \u00e9 moda para a idade, para o clima, para a ocasi\u00e3o e, terr\u00edvel descoberta, moda para a regi\u00e3o. O bonito para Lins nem sempre o era para Ara\u00e7atuba, Bauru, etc. Um erro de avalia\u00e7\u00e3o era preju\u00edzo certo. Como trabalhar em escala se t\u00ednhamos que controlar cada corte, cada pe\u00e7a, para n\u00e3o vender duas para a mesma cidade? Causar um par de vasos era guerra certa com as madames.<br>Com esta limita\u00e7\u00e3o em vista, era natural a busca de novos caminhos. A primeira ideia foi acompanhar nas revistas o que se anunciava. Os eletrodom\u00e9sticos chamavam a aten\u00e7\u00e3o. Era atraente a ideia de ter como parceiros ind\u00fastrias com administra\u00e7\u00e3o mais moderna, como eram as de origem americana e alem\u00e3. Era cristalina a ideia de que ter\u00edamos o que aprender com eles.<br>As ideias estavam latejando na mente, at\u00e9 que um fato serviu como estopim. Um dia, tentando presentear um amigo que ia se casar, tive muita dificuldade para comprar um eletrodom\u00e9stico anunciado em revista nacional. Minha insatisfa\u00e7\u00e3o com o atendimento e a pouca variedade de escolha levaram-me a comentar com meus funcion\u00e1rios: ou este ramo \u00e9 muito ruim, ou esse pessoal trabalha muito mal. Um deles me disse: voc\u00ea sempre acha que os outros est\u00e3o dormindo; voc\u00ea n\u00e3o entende disso, n\u00e3o ponha minhoca na cabe\u00e7a. Devolvi-lhe: Ningu\u00e9m nasce em ramo nenhum. Aprende-se desde que se tenha tempo e vontade. N\u00e3o custa nada tentar. E fui eu. Escrevi uma carta \u00e0 Walita pedindo a visita de um representante. Era uma linha muito anunciada, o que me levava a acreditar em um consumidor motivado. Recebi a visita e comprei seis liquidificadores, sob protesto de meu pessoal. Tive que vend\u00ea-los abaixo do custo. Os concorrentes, que vendiam, todos juntos, seis unidades por ano, protestaram: como a Walita podia vender para uma loja que n\u00e3o era do ramo? Fui, ent\u00e3o, \u00e0 Walita e negociei um pedido \u00e0 vista de cem unidades. Acertamos uma campanha promocional e vendemos Walita sem parar, at\u00e9 hoje. Fomos entrando com sucesso em outras linhas, at\u00e9 comprarmos a maior loja do ramo de Lins, revendedora exclusiva da Frigidaire. A GM, fabricante do produto condicionou-nos a n\u00e3o vender outra marca. Nada feito! Cota de fornecimento n\u00e3o \u00e9 para mim. Quero vender onde haja liberdade de competi\u00e7\u00e3o. \u00c9 a concorr\u00eancia que gera neg\u00f3cio, por isso, nosso lugar \u00e9 onde tiver um bom concorrente. Onde n\u00e3o h\u00e1 concorrentes n\u00e3o h\u00e1 par\u00e2metros para o consumidor nos avaliar. Iniciei um processo de busca de marcas iniciantes, que careciam de distribuidor, como a desconhecida Brastemp, que precisava mais de mim do que eu deles.<br>Prato cheio para as gaivotas: agora voc\u00eas quebram; geladeira \u00e9 loucura pois dura uma vida, n\u00e3o tem renova\u00e7\u00e3o. Ignoravam as inova\u00e7\u00f5es. Eram prisioneiros de uma mentalidade que estava sendo superada pelo marketing moderno.<br>Se estava decantada a solu\u00e7\u00e3o para o crescimento em termos de linha de produto, persistia enorme dificuldade quanto \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de pessoal qualificado.<br>A solu\u00e7\u00e3o foi contratar mo\u00e7os de 16 a 18 anos, cuja escolaridade n\u00e3o passava do n\u00edvel t\u00e9cnico de contabilidade e ensin\u00e1-los. T\u00ednhamos que aprender e depois treinar. Al\u00e9m disso, a administra\u00e7\u00e3o de tr\u00eas lojas em vez de uma era bem diferente. Precis\u00e1vamos agora planejar, executar e controlar \u00e0 dist\u00e2ncia. N\u00e3o havia descanso. Cada um de n\u00f3s tinha que valer por tr\u00eas. Paramos para reorganizar. Perdemos muito tempo em busca de uma perfei\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel. Da\u00ed a conclus\u00e3o \u00f3bvia: progredir \u00e9 desorganizar, pois o processo \u00e9 din\u00e2mico. \u00c9 como a crian\u00e7a: ao crescer, fica com a canela \u00e0 vista.<br>A d\u00e9cada de 60 n\u00e3o come\u00e7ou bem. A elei\u00e7\u00e3o de J\u00e2nio Quadros trouxe esperan\u00e7a e, na sequ\u00eancia, enorme desesperan\u00e7a. Ap\u00f3s a ren\u00fancia dele, o Brasil de Jo\u00e3o Goulart era desgovernado, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica n\u00e3o podia ser pior. O Pa\u00eds afundava no derrotismo: o momento era para vender o que tinha e gastar o dinheiro, porque o Pa\u00eds ia acabar. O mercado interno encolhia; as exporta\u00e7\u00f5es eram da ordem de 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares, contra os 28 atuais. J\u00e1 est\u00e1vamos pensando, ent\u00e3o, em vir para S\u00e3o Paulo, mas tivemos que aguardar at\u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o se definisse. Veio a crise pol\u00edtica de 64 com as esperan\u00e7as da revolu\u00e7\u00e3o. O governo s\u00e9rio de Castello Branco oferecia sacrif\u00edcios em troca de respeito e zelo pelo bem p\u00fablico.<br>A pol\u00edtica recessiva de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o eficaz quanto dolorosa. Roberto Campos aconselhava diariamente na televis\u00e3o: n\u00e3o compre, porque amanh\u00e3 ser\u00e1 mais barato. Ningu\u00e9m comprava, os pre\u00e7os ca\u00edam abaixo do custo. Receb\u00edamos mais produtos em devolu\u00e7\u00e3o do que vend\u00edamos. Em fevereiro de 1966, para uma previs\u00e3o de receita de 1,2 milh\u00f5es e despesas de mais de 300, nossa venda foi de 230. Todos os nossos concorrentes na regi\u00e3o foram \u00e0 concordata ou sa\u00edram do ramo. Os fornecedores diziam: esse ramo vai acabar, n\u00e3o conseguimos produzir nem um volume igual ao da Argentina. O vendedor aconselhava o comprador a desistir da atividade. Ficamos sozinhos, sem concorrentes, mas sem mercado e quase descapitalizados. O pouco que restou estava no caixa. N\u00e3o havia neg\u00f3cio nem investimento. O que fazer com os recursos? Decidimos nos concentrar em eletrodom\u00e9sticos, abandonando o ramo inicial e partir para a expans\u00e3o, pois as oportunidades eram enormes. Em Ribeir\u00e3o Preto, ficamos com uma das melhores lojas da cidade que o dono fechara com cadeado afirmando que s\u00f3 iria abrir quando a crise passasse. Assumimos muitos pontos sem custo inicial: em Santos, um excelente ponto. Para as gaivotas era demais: fechar o ramo que dava lucro, no qual todos acreditavam, e partir para outro que estava acabando, era loucura. Sofremos uma campanha de boatos que abalou at\u00e9 nossos fornecedores. Nunca t\u00ednhamos atrasado um pagamento, nosso endividamento era m\u00ednimo, nunca deix\u00e1ramos de cumprir um \u00fanico compromisso e acreditavam em nossos concorrentes concordat\u00e1rios que afirmavam: a pr\u00f3xima \u00e9 a Arapu\u00e3.<br>No auge da boataria, visitei os principais fornecedores em S\u00e3o Paulo e, da maioria, ouvi palavras de incentivo. Somente um recusou-se a fornecer, em fun\u00e7\u00e3o dos boatos. Pedi uma entrevista com o Presidente, que confirmou sua posi\u00e7\u00e3o, junto com toda a Diretoria. Respondi-lhe: Aceito n\u00e3o ter cr\u00e9dito em fun\u00e7\u00e3o de fatos, n\u00e3o de boatos, e vim aqui n\u00e3o para pedir cr\u00e9dito, mas para convid\u00e1-lo a fazer auditoria em meus n\u00fameros. Depois aceito qualquer veredito, mas n\u00e3o posso aceitar julgamento \u201ca priori\u201d. Prometeram-me ent\u00e3o uma visita para 15 dias e, at\u00e9 l\u00e1, continuariam fornecendo. A visita nunca se realizou. Na verdade, estavam, como todo o mundo, perdidos e n\u00e3o tinham muitos outros clientes para vender.<br>Estava vivendo o drama de Fern\u00e3o Capelo Gaivota, a frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o conseguir voar naquele cr\u00edtico m\u00eas de fevereiro de 1966, quando, em uma viagem a S\u00e3o Paulo, nas proximidades de Porto Feliz, em miser\u00e1vel estrada de terra, um caminh\u00e3ozinho 1918 ou 1922, todo arrebentado, tendo em cima uma placa de aluguel, tinha uma mensagem no para-choque: a vida \u00e9 dura para quem \u00e9 mole. Quando li aquilo pensei: esse sujeito mora no fim do mundo, tem um caminh\u00e3o de aluguel do come\u00e7o do s\u00e9culo, trafega em uma estrada dessas disposto a vencer na vida com esse neg\u00f3cio e ainda desafia o mundo. N\u00e3o sou eu que vai desistir! Cheguei a S\u00e3o Paulo que nem um le\u00e3o. Nunca esqueci essa experi\u00eancia e nunca pude agradecer \u00e0quele motorista pelo incentivo.<br>Em 1966, conhecendo o sistema de cr\u00e9dito ao consumidor dos Estados Unidos, tentei adapt\u00e1-lo aqui. Na Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, onde fazia um curso intensivo, abordei, sobre o assunto, um Diretor de Banco Central que fazia uma palestra. \u00c9 proibido, disse ele. Retruquei-lhe que sabia ser proibido, mas queria um jeito de adapt\u00e1-lo. Ele me respondeu: N\u00e3o diga a ningu\u00e9m, porque ainda n\u00e3o \u00e9 oficial, mas isso vai mudar dentro de poucos meses. Dito e feito, O que era proibido passou a ser obrigat\u00f3rio para as Financeiras; e como n\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos comprado a Fen\u00edcia, sa\u00edmos na frente no financiamento ao consumidor. Concorrentes de porte demoraram dez anos para acolher a ideia e enquanto isso n\u00f3s ficamos sozinhos.<br>O milagre brasileiro, a partir de 1968, encontrou-nos preparados para deslanchar. T\u00ednhamos estruturado a Fen\u00edcia e iniciado um programa de contrata\u00e7\u00e3o de executivos profissionais. Come\u00e7amos a mesclar gente nova com o nosso pessoal. O choque n\u00e3o foi pequeno, mas os resultados foram positivos: nosso pessoal cresceu, profissionalizou-se, aprendeu e ensinou. Em momento algum abandonamos a pol\u00edtica de aproveitar preferencialmente o pessoal da casa. Iniciamos tamb\u00e9m uma experi\u00eancia em S\u00e3o Paulo, com uma loja piloto. Tudo isso ajudou a aproveitar o boom do milagre econ\u00f4mico.<br>Em uma manh\u00e3 de 1970 fui avisado de que a Fen\u00edcia estava em chamas. Sa\u00ed \u00e0s pressas, mas a regi\u00e3o estava interditada. Um bombeiro me tranquilizou dizendo que n\u00e3o havia v\u00edtimas. Pensei: o resto \u00e9 recuper\u00e1vel. Mas foi um desastre. Perdemos tudo. N\u00e3o sobrou nem um papel. Fomos obrigados a segurar as opera\u00e7\u00e3o por quase dois anos, pois nos faltavam dados administrativos, aparentemente banais, mas que nos deixavam inseguros para assumir riscos. Salvou-nos termos o computador e os registros em outro local. Fui para um escrit\u00f3rio no centro da cidade preparar um programa de trabalho. Estava t\u00e3o envolto que n\u00e3o notei os funcion\u00e1rios me observando da porta. O senhor sabe o que est\u00e1 acontecendo? A Fen\u00edcia pegou fogo. E agora? Respondi: Sei. Agora teremos que trabalhar mais e eu j\u00e1 comecei. Sem jeito, recuperaram a serenidade e mergulharam no trabalho.<br>Em 1971 j\u00e1 est\u00e1vamos recuperados. Era evidente que nossa capacidade de gerar lucro era maior do que a de formar administradores para os neg\u00f3cios. Fomos ent\u00e3o atr\u00e1s de uma atividade que absorvesse os recursos dispon\u00edveis e exigisse pouca gente. Escolhemos a constru\u00e7\u00e3o, o mercado imobili\u00e1rio paulistano, sem car\u00e1ter especulativo e sim empresarial, motivados tamb\u00e9m pelas perspectivas de desenvolvimento do Sistema Financeiro Habitacional. Acertamos. A empresa montada, a Lotus, mostrou-se muito rent\u00e1vel, sem atropelar o seu crescimento. Foi a empresa que nos deu mais resultado em rela\u00e7\u00e3o ao capital, tempo e trabalho. S\u00f3 erramos porque ela, em vez de absorver recursos, como prev\u00edamos, ela gerou ainda mais.<br>Em 1973 nossas previs\u00f5es apontavam para a incapacidade de, sem cair na especula\u00e7\u00e3o, absorver todos os recursos das empresas. Planejamos, ent\u00e3o, ingressar em uma atividade de capital intensivo, que n\u00e3o nos limitasse geograficamente, e de administra\u00e7\u00e3o centralizada que diversificasse nosso risco, \u00e0quela altura muito dependente da venda e do financiamento dos bens de consumo dur\u00e1veis. No milagre, tudo bem, mas como seriam as vacas magras? Optamos pela invers\u00e3o na ind\u00fastria de alimentos, em uma empresa pequena, a Duchen, para bancar o aprendizado, formar pessoal e aguardar confian\u00e7a para crescer.<br>Nossa pol\u00edtica foi sempre expansionista: investir o lucro para crescer. Nosso limite n\u00e3o estava nos recursos, mas em gente treinada. At\u00e9 1980 fomos ampliando, de aquisi\u00e7\u00e3o em aquisi\u00e7\u00e3o. A partir da\u00ed, com os primeiros sinais da crise, apertamos os crit\u00e9rios de expans\u00e3o e procuramos aumentar a liquidez para aguentar tempos duros. Levamos ao m\u00e1ximo nossa pol\u00edtica de absoluta independ\u00eancia financeira. Nosso objetivo passou a ser s\u00f3 negociar por conveni\u00eancia, jamais por necessidade. Nessa linha compramos um banco em 1982, uma nova f\u00e1brica da Etti em Petrolina, a Prosd\u00f3cimo no Paran\u00e1 e pontos comerciais da Brastel no Rio.<br>Voltamos ao ponto inicial em 1985. Tentei transmitir, no voo deste Fern\u00e3o Capelo Gaivota, recheado de frustra\u00e7\u00f5es e euforias, sempre inconformado e inovador, o roteiro de uma vida que n\u00e3o foi dura, mas n\u00e3o foi levada na moleza. Espero que me perdoem se ca\u00ed na tenta\u00e7\u00e3o de atribuir-me honras sem merec\u00ea-las. Espero tamb\u00e9m que os valores de meus antepassados \u2013 a devo\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade, de meu av\u00f4, e a corajosa determina\u00e7\u00e3o de meu pai \u2013 tenham sido identificados na vida deste modesto Fern\u00e3o Capelo Gaivota.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"300\" height=\"168\" src=\"https:\/\/circuitobr116.com.br\/noticias\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/arapualoja.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-59\"\/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MINHA HIST\u00d3RIA EMPRESARIAL A convite da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), com outros colegas, prestei um depoimento sobre minha vida de empres\u00e1rio, que consta da Colet\u00e2nea organizada por Cleber Aquino, publicada em 1986 pela Gazeta Mercantil, no volume I. 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